Ajuda enviada pelo Brasil a palestinos fica retida na fronteira da Faixa de Gaza
Deputado italiano Ângelo Bonelli, do partido Europa Verde denuncia o bloqueio
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Centenas de pacotes de ajuda humanitária destinados à Faixa de Gaza enviados por vários países, incluindo o Brasil, estão bloqueados por Israel na região da fronteira com o Egito.
O bloqueio tem sido denunciado O deputado italiano Ângelo Bonelli, do partido Europa Verde, denuncia o bloqueio, que Israel nega. Bonelli integra uma delegação italiana enviada à região fronteiriça para monitorar a entrega de ajuda. Segundo ele, os insumos estão em uma tenda do Comitê Internacional do Crescente Vermelho (braço da Cruz Vermelha em países islâmicos) na região de Al-Arish, distante cerca de 20 quilômetros da passagem de Rafah.
O parlamentar afirma ter se deparado com cerca de 400 pacotes de ajuda, incluindo 30 que foram enviados pelo governo brasileiro e empresas privadas. As caixas, segundo ele, contêm medicamentos, incubadoras, refrigeradores, cilindros de oxigênio, muletas, barracas, painéis solares e outros itens destinados principalmente a profissionais de saúde palestinos.
Uma das cargas paradas na fronteira contém filtros de água portáteis da startup brasileira Pwtech, capazes de purificar até 5.000 litros por dia.
Um funcionário egípcio da ONU, falando em condição de anonimato, disse à Folha de S.Paulo que muitos pacotes estão parados desde o início da guerra. Segundo ele, parte dos itens rejeitados por Israel tem peças metálicas que poderiam ser usadas para gerar energia, enquanto um kit de primeiros socorros foi barrado por conter uma tesoura.
Centenas de caminhões com ajuda humanitária também estão parados próximos de Gaza à espera de autorização para entrar no território palestino. "Há uma fila interminável de caminhões que foram bloqueados de entrar em Rafah apesar da situação catastrófica [em Gaza]", diz Bonelli. "Uma loucura."
Organizações que atuam com direitos humanos dizem que inspeções prolongadas e bombardeios das forças israelenses bloqueiam a entrega de ajuda aos palestinos. O subsecretário-geral da ONU para Assuntos Humanitários, Martin Griffiths, chegou a descrever a situação como "impossível" ao comentar as dificuldades que as organizações lidam para fornecer ajuda a Gaza. "Três níveis de inspeções antes mesmo de os caminhões conseguirem entrar. Confusões e longas filas. Uma lista crescente de itens rejeitados. Bombardeios constantes. Comunicações ruins. Comboios alvejados", escreveu ele no X.
A pressão contra o governo israelense aumentou nesta terça-feira (5/março), após o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, afirmar que "não há desculpa" para que a ajuda não chegue a Gaza. No sábado (2/março), aviões americanos lançaram pela primeira vez kits com água e comida sobre o território palestino –Washington diz que os militares forneceram quase 40 mil refeições, enquanto a ONU estima que meio milhão de palestinos estão à beira da fome.
As críticas às ações de Israel em Gaza são endossadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que teve que lidar com uma crise diplomática com Tel Aviv depois de comparar as ofensivas israelenses ao extermínio de judeus promovido por Adolf Hitler. O líder petista foi declarado persona non grata por Israel, e o embaixador brasileiro Frederico Meyer foi chamado para reprimenda fora do protocolo diplomático, no Memorial do Holocausto.
A Organizações das Nações Unidas afirmou que os níveis de desnutrição infantil no norte da Faixa de Gaza estão "particularmente extremos". Richard Peeperkorn, representante da organização para Gaza e a Cisjordânia, disse que uma em cada seis crianças menores de dois anos de idade estava gravemente desnutrida no norte de Gaza. "Isso foi em janeiro. Então, a situação provavelmente é pior hoje", afirmou ele, referindo-se à época de registro dos dados.

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